Silêncio nas palavras


Esnuquei:

-me.


Por ignorar os sinais

Andei 40 anos no deserto, sem dormir. 

Depois hibernei por 13 anos e sonhei. Mas no sonho eu ainda dormia e escolhi o que não escolheria. Na confusão penumbrosa de vontades perdi pra eu mesma, por pura teimosia.

Por sorte as consequências chegaram à galope e de forma que nunca se esqueça.

O mais custoso, ao despertar, foi me perdoar por não conseguir me manter acordada, me perder nos caminhos, não ouvir o que me dizia.

Mas não se muda o que passou nem se apressa o rio. O tempo lamentando é duas vezes perdido: significa que você ainda não entendeu a lição.

O presente é daqui pra frente.

Mesmo assim vou correr pra não dormir.


Puzzle de nuvens

Desemaranhando datas que a ventania embaralhou.

Mas começa a surgir estranha lógica na desordem e me pergunto se quero mesmo apostar contra o equilíbrio que apenas adivinho mas sinto que existe.

E se existe antecipa todas as minhas jogadas, conhece o ninho do meu pensamento, e qualquer decisão esboçada - mesmo se tentar fugir da obviedade usando, por teimosia ou pseudo astúcia, o contrário da opção primeira -  só resulta em sorriso condescendente, ares de eu já sabia.

Rompendo paisagens surge a percepção de pedra que tudo se iguala, a derrota e a vitória (mesmo por w.o.), todo e qualquer passo (com ou sem tropicão) será usado para lapidar a estrada, mesmo os ásperos momentos empacados.

Aí eu, a eternamente assombrada pela cosmologia do acaso, aceito o final das desesperadas tentativas de subverter a ordem e rendo meu espanto mudo e paralisado, respeito profundo, frente à perfeição que vem. E ao me reconhecer serva conquisto minha liberdade. 

Quente e pulsante, carne e raízes expostas, despejo no pântano da renovação das coisas a responsabilidade que não é minha mas que devorou mil sóis do meu calendário. (Cuidado crianças: eles ainda ardem em sua barriga dilatada enquanto seu dedo de culpa vagueia escolhendo novas vítimas.)

Agora é sem sofrimento: continuar atenta mas sem querer apressar o final. As coisas são simples. Só se trata de escancarar bem a vista e engolir o mistério. Afinal, tudo está em ordem. Principalmente no centro do caos.


A mulher que gritou EU no coração do mundo

Num dos vários finais possíveis vivo para descobrir porque vivo, só eu posso encontrar o valor.

Encarar o medo do incerto, olhos arregalados mas secos. Como orientar um mundo de perfeita liberdade? Emancipar a própria imagem trancada na visão dos outros, conseguir se ver sem diferenças com o nada, todos os lados do espelho?

É só a mente que separa a realidade da verdade, a percepção da natureza das coisas. E a natureza pode ser mudada, simplesmente, pela maneira como você a aceita.

E, às vezes, o que pareceu perdido para sempre retorna, diferente mas igual, provando que era só mais uma ilusão essa nossa distância. Poder abandonar a esperteza extrema de não se lembrar do que sabe.

Servir como escrava da verdade por 7 anos, e mais 7 apenas por gratidão. (Que ninguém use sua ignorância como desculpa.)  Depois, com a força conquistada, seguir o caminho que espera desenhado por trás das cortinas, saber quem se é.

Sou quem  já era. Só que agora gosto de ser.

Imagem: Denis Nuñez Rodriguez - Como un árbol viejo, pero llenito de manzanas.


Gansos no quintal

Lembro da sala, cores quentes dançando caleidoscópicamente e sombras agudas nos cantos da prateleira cheia de vinis.

Lembro do piano mudo, elefante azul no meio da sala, três plantas bem nutridas e o desenho de uma cidade visitada da qual esquecera o nome.

Lembro da manhã ensolarada em que tudo que queria era fazer nada, mas obedeceu a vida que mandava sair do esconderijo direto pras engrenagens do mundo.

Dos papéis sobre a mesa, pilhas de cartas (amarelecendo ainda pacientes e esperançosas) aguardando resposta, do rasgo no tapete em ângulo reto com a lajota do piso e a quina da parede.

Da música antiga que ganhava sentimento novo, da noite que podia nunca acabar, do pneu do carro espatifando o espelho de água que refletia luzes do alto no asfalto esburacado.

Dos olhos que fugiam ao encontro enquanto suspiros abafados entregavam a comédia do momento. Que calamos, por ser demais o fardo das palavras. Que disfarcei o embaraço tentando encaixar sentido nos pedaços recortados de uma canção distante, fragmentos chegados na brisa de festa ausente de nós, enquanto nenhuma estrela caía do céu.

Lembro, ainda, que nunca li seus poemas até o fim.

Mas, engraçado..., não consigo lembrar o porquê.




Hoje

Tudojuntoaomesmotempoagora.

Identidade

Sei que existo.

E só existe saber experimentando: tive que procurar a certeza.

Digitei meu nome no google que garantiu (numa investigação rápida e eficiente) que faço parte, sim!, da comédia onírica que tá rolando.

Mesmo assim às vezes bate uma ou outra dúvida,  já que nada é tão fácil assim.

Mil e uma especulações, do racionalismo ao grande mistério passando pelas ancas malemolentes da primeira ancestral, viajante do tempo, que exibe um sorriso largo e sincero que retribuo. Paranóiazinha tagarela e insistente, típica de quem acostumou estar errada.

Tudo porque minha busca não encontrou nenhuma imagem, e ainda não me reconheço no espelho.


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Pausar o tempo

Continuar dormindo.

E no sonho vagamente se perguntar se isto, o aqui-agora-já, é o tudo.

Só por preguiça de ter que entender que não passa de dízima periódica:

a
gota
dentro da
gota dentro da
gota dentro da
gota dentro da gota
dentro da gota
dentro da gota
dentro da
gota
... 
                       .                         
                                                                                     infinitamente maior.

É que assusta.

Mas também consola.

Ainda ontem

Caindo da bicicleta, recém sem rodinhas.

Colecionando figurinhas.

Tomando leite com morango em pó.

Pulando amarelinha riscada com giz no concreto da calçada.

Com as duas metades da laranja nas mãos.

E servindo só como tapetes: bandeiras e jornais.

Quanto mais espero menos esperarei

Muitas luas depois.

Eras glaciais encaixotando e classificando sentimentos, queimando muita coisa para manter o coração aquecido, sou meu próprio experimento fora de controle.

E agora estou à porta e não existe marcha à ré.

Pisco para acostumar com a claridade, luz demais também cega.

Ensaio-me, repassando tudo o que preciso lembrar de lembrar.

E sei que, depois de tanto tempo escavando relíquias na penumbra, pode ser difícil manter os pés longe das armadilhas: as ameaças dos mesmos clichês perigosos de sempre. (Algum dia me sentirei pronta?)

Dizem que receberemos muito se ousarmos muito.

Não sei mas vou tentar.

Deseje-me todo o amor.


Cavaleira da ordem do deserto

Esforços gigantescos para recuperar a voz e para que o silêncio não seja mais hereditário.

É que não basta recuperar a voz, é preciso também não perder as palavras. Elas exigem ser usadas, inteiras e recheadas de sentir, e são um poço sem fim. Se não as soltamos elas empedram em nossa garganta, embrulham o estômago e entopem o coração: morte sofrida com mil adjetivos.

Ainda estou aqui, preguiçosa no meio do redemoinho de letras. Com respeito pela coisa desconhecida, humilde mas gigante, esperando que um vento azul as espalhe pelo campo plantando novos parágrafos.

Em cima do medo coragem. Leve o tempo que precisar.


Dentro desta, outra esta

Bem pensei que já tinha conquistado o pensar-sentir-falar.

Então, não mais que de repente, o animal mostra os dentes, exacerbado. E pior, apenas pelo antigo prazer de ser do contra, demolir certezas empedradas.

(Grata, ilusão.)

Deixei-o ser. Agora digiro lentamente o que quis me mostrar com pressa: ainda falta. O trabalho é para a vida inteira, não se mata o dragão só se domina.

É preciso estar sempre atenta. E não deixar mais que ele escape do abismo onde repousa. Pelo menos não enquanto ainda está ferido.


Prognóstico

Na pressa de viver engoli sem ver o bichinho da saudade em uma folha de alface, roxa e crespa e mal lavada.
Nâo dei as 48 mastigadas e o bicho cresceu quilômetros dentro de mim.
Solitária.